Cortes em auxílios sociais podem reduzir em até 18% a renda de cidades do interior, mostra estudo
Levantamento da FEA-USP mostra que aposentadorias, Bolsa Família e BPC pesam o dobro nas economias de municípios fora de regiões metropolitanas; falta de reajuste real já teria levado 2,7 milhões de pessoas à pobreza desde 2022

Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP), mostra que aposentadorias, Bolsa Família e BPC (Benefício de Prestação Continuada) têm peso muito maior nas economias de cidades do interior do que se costuma supor — e que cortes ou congelamentos nesses benefícios podem gerar retração econômica mensurável fora das capitais.
O tamanho do peso nas cidades pequenas
Dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, segundo o estudo, o peso das transferências públicas na economia local é o dobro do observado nos grandes centros urbanos. No Ceará, por exemplo, os benefícios sociais respondem por 22% da renda agregada na capital e região metropolitana — mas chegam a 40% nas cidades do interior do estado. Para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo per capita, esses benefícios podem representar até metade de tudo o que a família recebe.
O que aconteceria sem reajuste real
O estudo comparou dois períodos: a valorização real dos benefícios entre 2022 e 2025 contra um cenário hipotético de congelamento, sem ganhos reais, nos moldes do que ocorreu entre 2019 e 2022. Pelas projeções do Made-USP, sem os reajustes reais observados no período recente, a renda agregada das cidades do interior cairia entre 6,8% e 10,8% ao longo dos próximos três anos.
O impacto varia bastante por região: o interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí teria as maiores quedas, entre 17% e 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco perderiam cerca de 15%. Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia ficariam entre 10% e 13% de queda. Já em estados como Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o recuo projetado é menor, em torno de 6,5% — uma diferença regional que reflete o quanto cada economia local depende proporcionalmente dessas transferências.
O efeito sobre a pobreza
Segundo o levantamento, a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 — se tivesse de fato ocorrido — teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza fora das regiões metropolitanas, das quais 2,4 milhões para a extrema pobreza. Em números absolutos, os estados mais afetados seriam Bahia (até 336 mil pessoas), São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil), com Maranhão, Pará e Ceará ultrapassando 200 mil cada.
Por que isso é relevante para quem pensa em cortes de gastos
Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, resume o mecanismo por trás dos números: "o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa" — e a ausência dele "geraria uma reação em cadeia na atividade econômica". Sobre o efeito direto nas famílias, ela é direta: "para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza". O estudo chega num momento em que candidatos à Presidência discutem publicamente planos de ajuste fiscal e corte de gastos — e sugere que decisões sobre o tamanho e o ritmo de reajuste de benefícios sociais têm efeitos econômicos concretos e desiguais pelo território, não apenas um custo fiscal abstrato no Orçamento da União.
Fontes
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-10/cortes-em-auxilios-sociais-podem-gerar-retracao-em-cidades-do-interior
Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.


