CBS de 11,3% pega o Senado de surpresa e MP do Imposto Seletivo chega ao Congresso: o que muda para o caixa das empresas
Cálculo do TCU para a alíquota de referência da CBS supera as estimativas de 2024 e de julho; o Senado tem até 15 de dezembro para decidir, e o governo promete manter a carga do IPI até janeiro de 2027 nos setores do Imposto Seletivo
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Duas notícias da terça-feira (3/11) puxam o mesmo fio da reforma tributária e interessam a qualquer empresa que venda, compre ou precifique no Brasil a partir de 2027. De um lado, o relator da alíquota de referência da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) no Senado, Eduardo Braga (MDB-AM), disse que "todos nós fomos pegos de surpresa com uma alíquota de 11,3%", segundo o InfoMoney. De outro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretendia enviar ao Congresso, no mesmo dia, a medida provisória que regulamenta o Imposto Seletivo, conforme a Agência Brasil.
São decisões diferentes, com prazos e consequências diferentes, mas que se encontram no mesmo ponto: o custo tributário do consumo no Brasil a partir de 2027 e a previsibilidade que as empresas têm para planejar. Este texto separa o que as fontes informam do que a VEXIA lê a partir dos números.
Contexto
A reforma tributária do consumo substitui, de forma gradual, PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS por um modelo de imposto sobre valor agregado dual: a CBS, federal, e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de estados e municípios. A CBS entra no lugar de PIS e Cofins a partir de 2027. O Imposto Seletivo, por sua vez, é um tributo extra, de caráter regulatório, que incide sobre bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.
Pela lei, a alíquota de referência da CBS deve ser calculada de modo a preservar a arrecadação dos tributos que ela substitui. Quem faz esse cálculo é o Tribunal de Contas da União (TCU), a partir de dados históricos, projeções econômicas, regimes diferenciados e benefícios fiscais. O resultado vai ao Senado, que fixa a alíquota por resolução.
Segundo o InfoMoney, o TCU chegou a 11,3468%, arredondado para 11,3%. Em 2024, o Ministério da Fazenda estimava uma CBS de 8,8%; em julho de 2026, a estimativa era de 9,21%. A distância entre o número esperado e o número calculado é o que explica a surpresa relatada por Braga.
O que está em jogo
Há três frentes abertas ao mesmo tempo.
1. A alíquota de referência da CBS. O Senado tem até 15 de dezembro para fixar a alíquota por resolução. Se não votar no prazo, passa a valer automaticamente o percentual calculado pelo TCU, de acordo com o InfoMoney. Na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), foi aprovado um requerimento para uma audiência pública antes da votação; Braga defendeu ouvir representantes do TCU, da Receita Federal e dos contribuintes sobre os fundamentos técnicos do cálculo.
2. A soma com o IBS. A estimativa anterior para o IVA dual era de 27,91%, resultado de 9,21% de CBS e 18,70% de IBS. Com a nova parcela federal, a soma pode chegar a cerca de 30%, conforme a reportagem. A alíquota do IBS ainda não foi definida.
3. O Imposto Seletivo. A Agência Brasil informa que o governo fechou acordo com os setores afetados para manter a carga tributária atual, hoje cobrada pelo IPI, com ajustes apenas pela mudança na base de cálculo. O IPI seria mantido temporariamente para esses setores até janeiro de 2027; a cobrança do Imposto Seletivo começaria em fevereiro de 2027. Para viabilizar a transição, o governo também pretende enviar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que prorroga a vigência do IPI para esses segmentos. O modelo permanente, previsto para 2028, seguirá em discussão no Congresso ao longo de 2027.
Durigan argumentou que a alíquota estimada da CBS ficou abaixo da proposta atribuída ao ex-ministro Paulo Guedes, que previa 12%. Segundo os cálculos enviados ao TCU, a alíquota máxima seria de 11,3% e a média, de cerca de 8,5%. Para o ministro, isso abre espaço para que o Congresso revise exceções e regimes favorecidos incluídos durante a tramitação, reduzindo as alíquotas de forma gradual.
Como isso funciona
Para o empresário, vale entender três mecanismos.
Alíquota de referência não é, necessariamente, a alíquota que o seu produto paga. A referência é o número-base. Na prática, setores com regime diferenciado, como alguns de saúde, educação e alimentos, pagam menos; quem não tem benefício paga a referência. É por isso que a referência sobe quando muitos setores têm tratamento favorecido: a conta precisa fechar a arrecadação, e o restante carrega a diferença. Esse raciocínio é uma leitura do mecanismo geral e aparece, de forma resumida, na própria fala de Durigan sobre a revisão de exceções.
Transição. Segundo o InfoMoney, pela Lei Complementar vigente, em 2027 e 2028 a CBS será cobrada 0,1 ponto percentual abaixo da referência. Com 11,3% mantidos, a cobrança poderia ficar em 11,2%.
Crédito. Um IVA funciona com crédito amplo: o que a empresa paga ao comprar insumos abate o que ela deve ao vender. Alíquota maior, portanto, pesa mais sobre o consumidor final e sobre quem tem pouco crédito a aproveitar, e menos sobre quem tem uma cadeia longa de compras formais. Para as pequenas empresas, que ainda estão decidindo entre o Simples e o regime regular, esse é o centro da conta, como a VEXIA mostrou em Simples, IBS e CBS: a janela para desistir da escolha de 2027.
Análise VEXIA
O que segue é leitura da VEXIA, não informação das fontes.
O ponto mais relevante da semana não é o número em si, mas o que ele revela sobre o processo. Uma reforma desenhada para dar previsibilidade chegou à reta final com o relator da alíquota dizendo que foi surpreendido. A surpresa, aqui, é um dado de risco: quando quem deve votar a alíquota declara que não esperava o resultado, aumenta a chance de uma disputa técnica e política até 15 de dezembro, e aumenta a incerteza para as empresas que precisam definir preço, contrato e margem de 2027 antes disso.
Existem duas leituras possíveis para o número de 11,3%. A primeira é que ele reflete o custo real das exceções e dos regimes favorecidos aprovados ao longo da tramitação. Se for assim, a conversa que Durigan sugere, de revisar exceções para reduzir alíquotas gradualmente, tende a ser a principal disputa de 2027: cada setor que perder um benefício vai reagir. A segunda leitura é que há premissas conservadoras nas projeções de arrecadação, e a audiência pública na CAE pode forçar o TCU e a Receita a mostrar as contas. As fontes não permitem dizer qual das duas é a correta; elas mostram apenas que o debate técnico vai acontecer.
Para as empresas, o efeito prático tende a variar por perfil. Quem vende para consumidor final, sem crédito a repassar, tende a sentir uma alíquota maior diretamente no preço ou na margem. Quem vende para outras empresas que aproveitam crédito pode ficar relativamente neutro, desde que a cadeia seja formal. Setores que dependem de preço de gôndola ou de contratos longos com reajuste definido são os mais expostos: se a alíquota for conhecida só em dezembro, o contrato de 2027 será assinado com informação incompleta.
O Imposto Seletivo, por sua vez, vem com um sinal diferente: a promessa de manter a carga do IPI até janeiro de 2027 e começar a cobrança em fevereiro sugere que o governo quer evitar um choque e dar tempo de adaptação aos setores. Isso é bom para planejamento de curto prazo, mas depende de duas coisas que ainda não estão fechadas: a aprovação da MP e a PEC que estende o IPI. Medida provisória tem efeito imediato, mas precisa ser confirmada pelo Congresso em prazo definido; se o Congresso alterar o texto, o acordo entre governo e setores pode mudar. A própria MP, segundo a Agência Brasil, passaria antes por conversa com o presidente Lula, o que mostra que o texto final ainda não era público no momento da reportagem.
Há, por fim, o cenário fiscal ao fundo. Com juros altos e debate sobre o ajuste das contas públicas, como mostramos em Quem comanda a economia no 4º mandato de Lula, qualquer alíquota que não preserve a arrecadação cria pressão por compensação em outro lugar. Para o empresário, isso significa que a discussão sobre a CBS não termina em dezembro: ela se mistura com o orçamento de 2027 e com o desenho do Imposto Seletivo permanente de 2028.
O que muda na prática
- Trabalhe com faixa, não com número único. Para o orçamento e a precificação de 2027, simule CBS em 9,2% e em 11,3% (e a soma com IBS entre cerca de 28% e 30%), e veja quanto da diferença você consegue repassar ou absorver.
- Revise cláusulas de reajuste tributário em contratos. Contratos de 2027 assinados agora devem prever como mudanças de alíquota serão tratadas, para evitar que a margem absorva sozinha a diferença.
- Mapeie seus créditos. Liste fornecedores formais, insumos e despesas que gerarão crédito de CBS e IBS. Quanto maior o crédito, menor o peso da alíquota nominal.
- Se atua em setor sujeito ao Imposto Seletivo, acompanhe o texto da MP e da PEC. A promessa é de carga igual à do IPI até janeiro de 2027, mas a base de cálculo muda, e é nela que pode haver diferença.
- Acompanhe a audiência pública da CAE e a votação do Senado até 15 de dezembro. Se não houver votação, vale o número do TCU automaticamente.
Cenários e próximos passos
- Senado mantém 11,3%: o cálculo do TCU vale; o foco passa a ser a definição do IBS e a revisão de regimes diferenciados em 2027.
- Senado fixa alíquota menor: a decisão exige que a conta feche de outra forma, o que pode significar cortes de benefícios, compensação em outro tributo ou revisão posterior; a fonte não detalha como.
- Prazo estoura sem votação: vale automaticamente o percentual do TCU, segundo o InfoMoney.
- MP do Imposto Seletivo: com a edição da medida, o Congresso passa a analisar o texto; a PEC da prorrogação do IPI é o segundo passo e é ela que sustenta a transição prometida até janeiro de 2027.
O que não se sabe, até aqui: o texto final da MP, a alíquota do IBS e a data da votação da resolução no Senado dentro do prazo de 15/12.
Fontes
- InfoMoney, "Relator da CBS no Senado diz que todos foram pegos de surpresa com alíquota de 11,3%" (03/11/2026): infomoney.com.br/politica/relator-da-cbs-no-senado-diz-que-todos-foram-pegos-de-surpresa-com-aliquota-de-113
- Agência Brasil, "Governo quer enviar MP do Imposto Seletivo ainda hoje ao Congresso" (03/11/2026): agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-11/governo-quer-enviar-mp-do-imposto-seletivo-ainda-hoje-ao-congresso
Como esta matéria foi feita. A redação da VEXIA usou inteligência artificial para reunir e organizar fontes públicas (dados oficiais, empresas e imprensa especializada), e revisou o texto antes de publicar. As fontes estão citadas ao fim da matéria.
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