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Com US$ 1,7 bi em caixa, dark kitchens de Travis Kalanick saem da sombra e miram o Brasil

A Atoms, holding que reuniu CloudKitchens e novas apostas em automação, unificou a operação latino-americana na marca NovaKitchens; o Brasil já concentra 14 unidades, 438 cozinhas e 64% da presença regional

Por
VEXIA
Publicado em · 6 min de leitura

Contexto

Travis Kalanick, cofundador e ex-CEO da Uber, deixou a empresa em 2018 em meio a disputas com o conselho e acusações de assédio e cultura tóxica. No mesmo ano, assumiu a liderança da CloudKitchens, companhia de cozinhas compartilhadas (dark kitchens) voltadas a restaurantes que operam só por delivery. Por quase oito anos, a empresa cresceu em modo discreto — sem entrevistas, sem grandes anúncios. Isso mudou em março deste ano, quando Kalanick voltou a falar publicamente, com a frase “sangrei, mas não morri”, e voltou a mudar em outubro, com a reportagem do NeoFeed publicada em 23/10 detalhando a nova fase da empresa na América Latina.

O que está em jogo

A CloudKitchens recebeu um aporte de US$ 1,7 bilhão, liderado pela Andreessen Horowitz (a16z), com a Uber entrando no quadro de acionistas. Com a nova rodada, a empresa foi reestruturada como holding sob o nome Atoms, controlada pela Citi Storage Systems, e passou a abranger teses além de alimentação — incluindo mineração e transportes. Segundo Kalanick, a tese por trás do nome é a transição de “bits para átomos”: usar inteligência artificial, software, sensores e robótica para automatizar processos físicos da economia. No braço de alimentação, a Lab37, divisão de automação da Atoms, desenvolve uma linha de montagem robótica para preparo de refeições, entre outras tecnologias.

Na América Latina, onde a operação começou em 2020, a marca foi unificada em abril sob o nome NovaKitchens, substituindo as marcas locais KitchenCentral (Brasil), PopKitchens (Chile) e Cocinas Ocultas (Peru). O Brasil concentra a maior parte da presença regional: 14 unidades (11 em São Paulo e 3 no Rio de Janeiro), somando 438 cozinhas — 64% de toda a operação latino-americana. Chile e Peru somam 245 cozinhas em nove unidades.

Como isso funciona

O modelo original de dark kitchen aluga cozinhas equipadas para restaurantes e marcas que operam só por aplicativos de delivery, sem salão de atendimento ao público — reduzindo o custo fixo de abrir uma unidade física tradicional. Mas a NovaKitchens está diversificando esse modelo com dois formatos novos, reunidos sob o conceito de “Kitchen-as-a-Service”:

  • Centros de produção, que atendem indústrias, restaurantes, padarias e empresas que precisam centralizar fabricação de alimentos — de produtos sem glúten e comida para pets a serviços de alimentação para universidades e cafés da manhã para imóveis de aluguel por temporada. Esses contratos tendem a durar de três a cinco anos, menos dependentes da volatilidade do delivery por aplicativo.
  • Virtual Operators, espaços usados como hubs de abastecimento e entrega de última milha para produtos como congelados, sorvetes, açaí, doces, pizzas congeladas, caldos e vinhos.

Segundo a empresa, os novos formatos já respondem por cerca de 20% do negócio na América Latina e entre 12% e 13% no Brasil especificamente. A companhia afirma que a economia média de capex para quem usa esse modelo, em vez de montar estrutura própria, é de cerca de 50%, variando conforme o projeto.

Carolina Baldo, general manager da NovaKitchens para a América Latina, descreveu à reportagem o novo público-alvo como empresas que já chegaram ao limite da própria capacidade de produção e buscam expandir sem comprometer capital em uma estrutura nova. Sobre a diversificação de formatos, afirmou que “ninguém quer concentrar todos os ovos na mesma cesta”, lembrando que o delivery segue crescendo no Brasil, mas que o mercado de alimentação como um todo é muito maior que esse único canal.

Análise VEXIA

O movimento da CloudKitchens/Atoms ilustra um padrão que vale observar em qualquer negócio construído em cima de um único canal de distribuição: quando o delivery por aplicativo deixou de crescer no ritmo acelerado da pandemia, o modelo puro de dark kitchen — cozinha alugada para quem só vende via iFood ou Rappi — ficou mais vulnerável a oscilações de demanda e a comissões de plataforma. A resposta da empresa foi recuar um passo na cadeia: em vez de depender só de restaurantes-cliente que vendem direto ao consumidor final via app, ela está vendendo capacidade de produção para empresas que precisam fabricar alimentos em escala, independentemente do canal de venda final.

Isso é relevante para qualquer negócio de capital intensivo: contratos de centro de produção com indústrias e padarias, de três a cinco anos, têm um perfil de receita muito mais previsível do que aluguel de cozinha para restaurante independente que pode fechar em poucos meses. A troca de um modelo de alta rotatividade e volatilidade por um de contratos longos e previsíveis é uma estratégia clássica de maturação de negócio de infraestrutura compartilhada — o mesmo movimento que, guardadas as proporções, data centers e armazéns fizeram ao migrar de clientes pontuais para contratos corporativos de longo prazo.

Há também um sinal de timing para o mercado brasileiro: a aposta em trazer soluções de automação robótica da Lab37 ao país só em 2027, e não agora, reconhece duas barreiras citadas pela própria executiva — a tecnologia ainda em fase de testes e o câmbio como obstáculo adicional para importar equipamento e know-how. Isso sugere que o Brasil funciona hoje mais como mercado de validação comercial do modelo de negócio (Kitchen-as-a-Service) do que como vitrine de automação de ponta — a robótica vem depois, quando a operação e o câmbio permitirem.

O que muda na prática

  • Indústrias de alimentos e padarias de médio porte ganham uma alternativa a construir fábrica própria: contratar capacidade de produção terceirizada via centro de produção, com economia de capex relatada em torno de 50%.
  • Restaurantes e marcas que dependem só de apps de delivery devem observar o movimento como sinal de mercado: a dependência de um único canal de venda está perdendo força mesmo entre operadores estruturados, e diversificar canal de distribuição tende a reduzir risco.
  • Empresas de hospedagem por temporada e redes de café da manhã (como o exemplo citado de imóveis de aluguel por temporada) têm agora um fornecedor terceirizado especializado para produção de alimentos em escala, sem precisar montar cozinha própria.
  • Investidores em proptech e foodtech devem acompanhar a evolução da receita por formato (dark kitchen tradicional vs. Kitchen-as-a-Service) como indicador de maturidade do modelo de negócio no Brasil.

Cenários e próximos passos

A NovaKitchens ainda não definiu os próximos passos de expansão de unidades na região, segundo a reportagem, mas a meta declarada é trazer soluções de automação robótica da Lab37 ao Brasil em 2027, condicionada à evolução cambial e ao amadurecimento da tecnologia nos testes atuais. O ritmo de crescimento dos formatos Kitchen-as-a-Service — hoje 12% a 13% do negócio no Brasil — é o indicador mais direto para acompanhar se a diversificação de receita está de fato reduzindo a dependência do delivery por aplicativo.

Vale também observar o posicionamento da Uber como investidora da rodada: a plataforma que mais se beneficiou do crescimento do delivery por aplicativo na última década agora também tem participação acionária numa empresa que ajuda restaurantes e indústrias a depender menos desse mesmo canal. Isso sugere uma leitura de mercado maduro, em que os grandes players reconhecem que a próxima fase de crescimento do setor de alimentação fora do lar passa por diversificação de canal, e não apenas por aumento de volume dentro do modelo atual de entrega por aplicativo — um sinal que outras empresas de logística e varejo alimentar no Brasil tendem a observar de perto nos próximos trimestres.

Fontes

  • https://neofeed.com.br/startups/com-us-17-bi-no-caixa-empresa-do-fundador-da-uber-sai-das-sombras-e-amplia-aposta-na-america-latina/
Nota de transparência

Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.

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