Pesquisa do Citi mostra assimetria: investidores veem risco maior numa vitória de Lula do que ganho numa de Flávio
Levantamento com 73 investidores institucionais mostra 79,5% esperando queda de mais de 5% do Ibovespa se Lula vencer domingo, contra 49,3% que esperam alta na mesma magnitude com Flávio Bolsonaro eleito

Contexto
O segundo turno da eleição presidencial é domingo (25), entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Na sexta-feira (23), véspera da votação, o Ibovespa fechou a última sessão pré-eleição em alta, e o dólar recuou para a faixa de R$ 5,00, segundo o InfoMoney. O movimento reflete semanas de reprecificação dos ativos brasileiros desde o primeiro turno, quando o índice já havia subido com força.
Para medir como o mercado se posiciona para a segunda-feira seguinte à apuração, o Citi fez um levantamento com 73 investidores institucionais, divulgado pelo InfoMoney em 23 de outubro. A pesquisa pediu aos participantes que estimassem o movimento do Ibovespa, do dólar e dos juros futuros em dois cenários: vitória de Flávio Bolsonaro e vitória de Lula.
O que está em jogo
Os números mostram uma diferença grande entre os dois cenários — não apenas na direção esperada, mas no tamanho do movimento.
Se Flávio Bolsonaro vencer:
- 49,3% dos investidores esperam alta do Ibovespa superior a 5% na sessão de segunda-feira.
- Cerca de 88% projetam valorização do real de pelo menos 2% frente ao dólar.
- 97% acreditam em queda adicional dos juros futuros; 68% esperam recuo superior a 50 pontos-base no DI com vencimento em janeiro de 2029, e 12,7% veem queda acima de 100 pontos-base.
Se Lula vencer:
- 79,5% esperam queda do Ibovespa superior a 5%.
- 63% preveem desvalorização do real acima de 5%, e 27,8% projetam queda entre 2% e 5%.
- 67,1% estimam abertura superior a 100 pontos-base no DI janeiro de 2029, e 14,3% projetam alta entre 50 e 100 pontos-base.
Os estrategistas do Citi, liderados por Andre Mazini, apontam uma leitura relacionada: investidores estrangeiros ampliaram a compra de proteção contra queda da Bolsa depois do primeiro turno, com contratos em aberto de opções do ETF EWZ (que replica ações brasileiras negociadas em Nova York) subindo para 12,2 milhões.
Como isso funciona
A pesquisa não mede o que vai acontecer — mede como o mercado está posicionado agora, o que já embute boa parte da reação esperada nos preços atuais dos ativos. É por isso que o Citi descreve o resultado como evidência de que o processo de reprecificação dos ativos brasileiros, iniciado após o primeiro turno, ainda não terminou: se os investidores já esperam um movimento desse tamanho, parte dele tende a ocorrer antes mesmo da votação, à medida que posições são ajustadas.
A leitura dos estrategistas do banco é que a trajetória das contas públicas — e não o nome do presidente eleito, isoladamente — é o que determina o apetite por ativos brasileiros. A expectativa de redução do prêmio de risco fiscal sustenta o otimismo em torno de um eventual governo Flávio; o temor de deterioração fiscal explica o pessimismo com a continuidade de Lula.
Análise VEXIA
O dado mais relevante da pesquisa do Citi não é a direção — era esperado que o mercado reagisse bem a Flávio e mal a Lula, dado o histórico de relação do setor financeiro com os dois nomes. O dado relevante é a assimetria: o ganho esperado com Flávio (49,3% veem alta de mais de 5%) é bem menor, em intensidade, do que a perda esperada com Lula (79,5% veem queda de mais de 5%). Em outras palavras, o mercado já precificou boa parte do otimismo com uma eventual vitória de Flávio nos preços atuais — a bolsa já subiu, o dólar já caiu — mas não precificou, na mesma proporção, um cenário de continuidade de Lula.
Isso cria um risco prático para quem administra caixa, dívida ou portfólio de uma empresa brasileira nos próximos dias: o cenário de maior volatilidade abrupta não é o de alta, é o de queda. Uma empresa com dívida em dólar, um fundo com posição em ativos brasileiros ou uma tesouraria que precisa fazer hedge cambial tem motivo para se proteger contra o cenário de cauda mais gorda — a queda forte —, mesmo que a avaliação de risco político aponte vitória apertada para qualquer um dos lados.
Há também um efeito de curto prazo que vale separar do movimento estrutural: parte da volatilidade da segunda-feira será reação ao resultado, não uma mudança de visão sobre fundamentos econômicos. Investidores e gestores que atuam com horizonte mais longo tendem a esperar a poeira baixar — literalmente alguns dias — antes de reagir a esse tipo de movimento de curtíssimo prazo, que historicamente se reverte parcialmente em poucas sessões.
Por fim, o aumento das posições de proteção via opções do EWZ é, em si, um indicador: fundos estrangeiros com exposição ao Brasil estão comprando seguro contra queda, o que sugere que o mercado profissional não está apostando com convicção total em nenhum dos dois cenários — está se protegendo contra o pior.
O que muda na prática
- Tesourarias com exposição cambial devem revisar hedge de dívida em dólar e contratos de câmbio antes de domingo, já que o cenário de maior volatilidade identificado pela pesquisa é o de queda, não o de alta.
- Empresas com decisões de investimento pendentes (expansão, M&A, captação) ganham argumento para esperar a segunda-feira — ou pelo menos os primeiros dias da semana — antes de travar condições de câmbio ou juros.
- Fundos e gestoras locais podem usar a pesquisa como referência de consenso: posições muito alinhadas ao consenso tendem a reagir menos ao resultado do que posições contrárias.
- Negócios dependentes de crédito (capital de giro, financiamento de estoque) devem monitorar o DI futuro de janeiro de 2029 como termômetro rápido da reação do mercado de juros à apuração.
- Investidores pessoa física com carteira concentrada em Brasil podem considerar diversificação como proteção, independente da preferência política, dado que o próprio mercado profissional está comprando seguro contra os dois cenários.
Cenários e próximos passos
O resultado da eleição sai no domingo (25), com a reação de mercado concentrada na abertura de segunda-feira (26). Se a pesquisa do Citi se confirmar, o movimento mais provável, segundo o banco, é um ganho moderado dos ativos brasileiros em caso de vitória de Flávio e uma correção abrupta em caso de vitória de Lula — mas o próprio Citi reconhece que pesquisas de posicionamento tendem a subestimar reversões rápidas, especialmente se o resultado for apertado ou contestado por qualquer lado. Nos primeiros dias após a apuração, o mercado também vai observar sinais do discurso do vencedor sobre política fiscal — um aceno a compromissos de ajuste de contas tende a reduzir a volatilidade inicial, independente de quem seja o eleito.
Vale lembrar que pesquisas de posicionamento como a do Citi captam a expectativa predominante entre grandes investidores institucionais, não o consenso de toda a economia — e o próprio histórico eleitoral brasileiro mostra que o mercado já errou a mão em precificações de curto prazo em pleitos anteriores, com reversões de parte do movimento inicial em poucas semanas. Para empresas que vendem para o consumidor final, o efeito mais sensível tende a vir pelo canal do crédito e da confiança: se os juros futuros realmente recuarem no cenário de vitória de Flávio, como projeta a maioria dos investidores consultados, o custo de capital de giro e de financiamento ao consumidor cai de forma relativamente rápida — mas se o cenário for de alta dos juros futuros, a reação tende a chegar primeiro no custo do crédito rotativo e do financiamento de longo prazo, antes de qualquer mudança efetiva de política econômica.
Fontes
- https://www.infomoney.com.br/mercados/alta-ou-queda-de-5-do-ibovespa-as-expectativas-do-mercado-para-sessao-apos-2o-turno/
- https://www.bloomberglinea.com.br/mercados/dolar-a-r-450-e-bolsa-em-250-mil-pontos-as-previsoes-de-wall-street-apos-o-1-turno/
- https://www.infomoney.com.br/mercados/ibovespa-hoje-bolsa-de-valores-ao-vivo-23102026/
Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.

