Como a farmacêutica Biomm virou o centro de uma suspeita de manipulação na B3
Conversas atribuídas a Daniel Vorcaro mostram o ex-banqueiro pedindo para “fazer bombar” a ação da fornecedora de insulina ao governo; a companhia subiu 98% em cinco pregões de 2024 sem fato relevante, mas não há investigação formal confirmada da CVM

A Biomm, farmacêutica brasileira e uma das principais fornecedoras de insulina ao governo federal, com ações negociadas na B3 sob o código BIOM3, virou o centro de uma suspeita de manipulação de mercado depois que conversas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo em outubro de 2025, mostraram o então controlador do Fundo Cartago orientando um intermediário a inflar a cobertura de imprensa sobre a empresa.
Contexto
Entre 20 e 26 de fevereiro de 2024, a ação da Biomm subiu cerca de 98%, de R$ 5,84 para R$ 11,57, em cinco pregões — o valor de mercado da companhia saltou de R$ 740,7 milhões para R$ 1,46 bilhão no período. A empresa não divulgou nenhum fato relevante nessa janela. O volume negociado passou de 20,9 mil ações, em 19 de fevereiro, para 311,2 mil ações em 26 de fevereiro — um salto expressivo mesmo considerando a baixa liquidez típica de ações de menor capitalização. No mesmo intervalo, o Ibovespa recuou 0,24%, ou seja, a alta da Biomm não acompanhou nenhum movimento geral do mercado.
Segundo as conversas reproduzidas pelo Estadão, Daniel Vorcaro — então à frente do Fundo Cartago, que chegou a deter 25,86% da Biomm antes de sair da base acionária após o estouro do escândalo do Banco Master — orientava Flávio Carneiro, sócio do site de notícias Brazil Journal, a produzir cobertura favorável à companhia. Vorcaro é citado dizendo que queria “fazer bombar essa ação” e que pretendia elevar o valor da empresa só com cobertura de imprensa, sem depender de fato relevante ou mudança operacional concreta.
O que está em jogo
Uma reportagem do Brazil Journal publicada em 20 de fevereiro de 2024 sobre os planos da Biomm no mercado de insulina incluiu entrevista com Walfrido Mares Guia, fundador da farmacêutica e, à época, também sócio do Fundo Cartago. Segundo as conversas reproduzidas pelo Estadão, Vorcaro reclamou por não ter sido consultado sobre o conteúdo da matéria antes da publicação — um detalhe que, segundo analistas ouvidos pelo NeoFeed, reforça a hipótese de que a cobertura jornalística estava sendo tratada como instrumento de valorização da ação, não como informação jornalística independente.
Marcello Guimarães, da consultoria Swot Global Consulting, afirma que a alta do período pode indicar manipulação de mercado e defende uma análise detalhada da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), citando o artigo 27-C da Lei 6.385/1976 — dispositivo que tipifica a manipulação de preços e a criação de condições artificiais de mercado como crime. A advogada Michelle Andrade, do escritório M. Andrade, diz ver sinais claros de manipulação de preço e defende que o uso de informação privilegiada (insider trading) também seja examinado — embora ela própria duvide que a CVM chegue a abrir uma investigação formal sobre o caso.
Como isso funciona
Segundo a reportagem, a CVM enviou um pedido de esclarecimentos à Biomm em 23 de fevereiro de 2024 — procedimento padrão quando o órgão regulador identifica movimentação atípica de preço ou volume. Em resposta ao NeoFeed, a autarquia afirmou que monitora o mercado e toma medidas quando necessário, mas não comenta casos específicos — o que significa que, até a publicação da reportagem, não há confirmação pública de que uma investigação formal esteja de fato em curso.
A própria Biomm, em nota, atribuiu a alta das ações a dois fatores legítimos: um aumento de capital aprovado em 6 de fevereiro de 2024 e mudanças na composição acionária da empresa no período. A companhia afirma que não tinha conhecimento das entrevistas concedidas por Mares Guia, que o assunto nunca chegou ao conhecimento do conselho de administração, e que todas as informações relevantes foram divulgadas pelos canais oficiais da B3 e da CVM. Flávio Carneiro, do Brazil Journal, não respondeu aos pedidos de posicionamento do NeoFeed.
Daniel Vorcaro foi preso em operação da Polícia Federal em novembro de 2025, já no contexto mais amplo da investigação sobre o colapso do Banco Master. Uma reportagem anterior do NeoFeed, de dezembro de 2025, identificou 1.780 ordens de venda somando R$ 68,9 milhões em ações da Biomm entre abril de 2024 e novembro de 2025 — um padrão de negociação que, segundo especialistas consultados à época, merece exame mais aprofundado, mas que também não foi, por si só, apontado como prova de irregularidade.
Análise VEXIA
O caso Biomm ilustra uma forma de manipulação de mercado mais difícil de enquadrar legalmente do que a clássica movimentação de preço por meio de ordens de compra e venda artificiais: usar cobertura de imprensa, em vez de operações financeiras diretas, para criar a percepção de valorização de uma empresa. Se as conversas atribuídas a Vorcaro refletem de fato o que aconteceu, o mecanismo seria relativamente simples — pautar uma reportagem favorável num veículo respeitado do mercado financeiro, sem alterar nenhum dado fundamental da empresa, e deixar que investidores reajam à notícia como se fosse informação nova e independente.
A dificuldade de provar manipulação nesse formato é exatamente o que torna o caso interessante do ponto de vista regulatório: a CVM tem instrumentos bem estabelecidos para investigar movimentações atípicas de preço e volume — e, segundo a reportagem, já enviou um pedido de esclarecimentos à empresa na época —, mas provar que uma matéria jornalística foi encomendada como instrumento de valorização de ação é mais difícil do que provar uma ordem de compra artificial, porque depende de reconstituir a intenção por trás de uma decisão editorial, não apenas de rastrear uma transação financeira.
Para investidores de pequenas e médias empresas listadas na B3 — o tipo de ação mais vulnerável a esse tipo de movimento, justamente pela baixa liquidez que amplia o efeito de qualquer onda de interesse repentino —, o caso Biomm é um lembrete prático: uma alta de preço rápida, sem fato relevante correspondente, vale tanto quanto qualquer outro sinal de alerta que normalmente levaria a uma checagem mais cuidadosa antes de qualquer decisão de investimento — mesmo quando a notícia que acompanha a alta parece vir de uma fonte jornalística respeitada.
É importante frisar que, até a publicação desta matéria, as acusações contra Vorcaro e os demais citados permanecem não comprovadas judicialmente neste caso específico — não há confirmação pública de investigação formal da CVM, denúncia do Ministério Público ou qualquer decisão judicial sobre a suspeita de manipulação da Biomm. O que existe, até agora, são conversas atribuídas a Vorcaro reproduzidas pela imprensa, a movimentação atípica do preço da ação documentada por dados públicos da B3, e as interpretações de analistas de mercado consultados pela reportagem — elementos que juntos levantam uma suspeita relevante, mas que não substituem uma apuração formal e conclusiva.
O que muda na prática
- Investidores em ações de baixa liquidez devem tratar altas rápidas e expressivas sem fato relevante correspondente como sinal de alerta — independentemente de a notícia que acompanha a alta vir de veículo respeitado.
- Jornalistas e veículos de cobertura de mercado financeiro enfrentam, com o caso, um lembrete sobre a importância de transparência em relação a possíveis conflitos de interesse de fontes e entrevistados ligados a movimentações acionárias.
- A própria Biomm segue precisando lidar com a reputação da marca associada ao caso, mesmo sem qualquer confirmação de irregularidade por parte da empresa em si — a ação acumula queda de 10,85% em 2026 e de 34,7% em 12 meses, hoje avaliada em R$ 866,3 milhões.
- O episódio reforça o interesse público em acompanhar os desdobramentos da investigação mais ampla sobre o Banco Master, já que Vorcaro, preso desde novembro de 2025, segue como figura central em múltiplos casos de suspeita de irregularidade no mercado financeiro brasileiro.
Cenários e próximos passos
A CVM não confirma publicamente se uma investigação formal sobre a movimentação das ações da Biomm em fevereiro de 2024 está em curso, e a reportagem não traz prazo para um posicionamento mais conclusivo do órgão regulador. O caso deve continuar a ser acompanhado como parte do conjunto mais amplo de investigações relacionadas a Daniel Vorcaro e ao colapso do Banco Master — um processo que, por sua extensão e complexidade, segue produzindo novos desdobramentos tanto na esfera criminal quanto na de mercado de capitais.
Fontes
- https://neofeed.com.br/negocios/como-a-farmaceutica-biomm-virou-o-centro-de-uma-suspeita-de-manipulacao-na-b3/
Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.


