Bradesco abre temporada de balanços com lucro de R$ 7,1 bilhões e inadimplência em alta
O resultado veio em linha com o esperado, sustentado por tarifas e corte de despesas, mas a margem com clientes caiu e a inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,3% para 4,6% — analistas já veem risco para os lucros dos próximos trimestres

O Bradesco abriu a temporada de balanços do terceiro trimestre entre os grandes bancos brasileiros com lucro líquido recorrente de R$ 7,109 bilhões — alta de 14,6% na comparação com o mesmo período de 2025 e de 0,8% frente ao trimestre anterior, ficando perto do consenso de mercado da Bloomberg, de R$ 7,14 bilhões. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) ficou em 16,1%, com recuo de 0,1 ponto percentual no trimestre, mas alta de 1,4 ponto no acumulado de 12 meses. Foi o 11º trimestre consecutivo de melhora nos resultados do banco.
Contexto
As receitas totais somaram R$ 38 bilhões, alta de 8,4% em 12 meses. O crescimento veio puxado principalmente por serviços: as receitas de prestação de serviços somaram R$ 10,9 bilhões (alta de 4,2% no trimestre e 3,1% no ano), com destaque para cartões (R$ 4,8 bilhões, +7,5% no trimestre), administração de fundos (R$ 1,1 bilhão, +8,6%) e mercado de capitais e assessoria financeira (cerca de R$ 600 milhões, alta de 23,8% no acumulado de 12 meses). Já a receita de conta corrente, cobrança e arrecadação caiu 2,7% no trimestre e 4,9% no ano, para R$ 2 bilhões.
Do lado das despesas, o banco mostrou disciplina: despesas operacionais somaram R$ 16,3 bilhões, com queda de 0,7% no trimestre e de 1% no ano. As despesas de pessoal e administrativas, de R$ 13,1 bilhões, subiram apenas 1,8% no acumulado de 12 meses — abaixo da inflação média de 4,41% apontada pelo próprio banco no período. A rede de atendimento físico encolheu de 4.744 para 3.892 pontos em um ano, uma redução de 852 unidades. O índice de eficiência em 12 meses melhorou de 50,7% para 47,2%.
O que está em jogo
O lado mais fraco do resultado veio do crédito. A carteira expandida somou R$ 1,15 trilhão, com crescimento de 1,1% no trimestre e 11,1% no ano — mas o crescimento ficou concentrado em financiamento de veículos (+5,8%) e consignado privado (+13,3%), enquanto crédito pessoal (-0,9%) e cartões para clientes de renda menor (-1,5%) recuaram. A margem financeira com clientes, antes de provisões, cresceu 1,5% no trimestre, para R$ 20,5 bilhões, mas a taxa média caiu de 9,1% para 8,9% — e, depois de descontadas as provisões para devedores duvidosos, a margem efetiva com clientes caiu 3,5% no trimestre e 2% no ano, para R$ 9,9 bilhões.
A despesa com provisões para devedores duvidosos somou R$ 10,64 bilhões, alta de 6,6% no trimestre e 24,3% no ano — o custo do crédito, em proporção da carteira, subiu de 3,5% para 3,7%. A inadimplência acima de 90 dias passou de 4,3% para 4,6% no trimestre: entre pessoas físicas, de 5,5% para 5,8%; entre micro, pequenas e médias empresas, de 4,4% para 4,9%; já entre grandes empresas, a inadimplência segue baixa, de 0,2% para 0,3%.
O CEO do banco, Marcelo Noronha, resumiu o cenário: “O mercado de crédito está mais restrito.” Segundo ele, as receitas de crédito cresceram menos do que o esperado, mas o resultado foi compensado por receitas fora do crédito e por bom controle de despesas. A divisão de seguros, previdência e capitalização teve lucro de R$ 2,9 bilhões, alta de 14,1% no ano (queda de 1,9% no trimestre), com rentabilidade sobre o patrimônio de 22% — um pilar de resultado que seguiu sólido mesmo com o crédito pressionado.
Como isso funciona
A reação do mercado ao balanço foi negativa: as ações preferenciais do banco (BBDC4) fecharam em queda de 2,08%, a R$ 20,22, na B3, e os papéis negociados nos Estados Unidos caiam 2,47% no after-market, a US$ 3,95, no momento da divulgação. Mesmo com a queda do dia, o papel acumula valorização de 11,16% no ano, com valor de mercado de R$ 213,3 bilhões.
Analistas consultados pela reportagem dividiram as leituras: Danielle Lopes, da Suno Research, observou que a parte de crédito não trouxe a contribuição que o mercado esperava, e que a margem com clientes já está em queda. Stefan Darakdjian, CFO da gestora Meraki Capital, foi mais direto sobre o risco à frente: o receio é que a alta da inadimplência prejudique os lucros do banco nos próximos trimestres, podendo levar o mercado a reduzir as expectativas para 2027. Segundo a reportagem, o Bradesco abriu a temporada de balanços do setor bancário brasileiro, e uma prévia da gestora Genial já havia antecipado esse padrão — resultado sustentado por tarifas e tesouraria, não por crédito.
Análise VEXIA
O balanço do Bradesco ilustra um padrão que tende a se repetir nos próximos resultados dos demais grandes bancos brasileiros nesta temporada: diante de um cenário de juros ainda elevados e inadimplência em alta, os bancos estão compensando a desaceleração do crédito — sua fonte de receita historicamente mais rentável — com crescimento de receitas de serviços (tarifas, cartões, gestão de recursos) e com corte agressivo de custos, inclusive de rede física. A combinação funciona no curto prazo para sustentar o lucro trimestral, mas não resolve o problema de fundo: se a inadimplência continuar subindo, como alertam os analistas consultados, as provisões para devedores duvidosos tendem a crescer mais rápido do que a receita de serviços consegue compensar.
O contraste entre a inadimplência em pessoas físicas (5,8%) e MPMEs (4,9%) de um lado, e grandes empresas (0,3%) do outro, é um dado relevante para qualquer negócio que avalia o ambiente de crédito no Brasil agora: bancos tendem a responder a esse descompasso com critérios de concessão mais rígidos justamente para pessoas físicas e pequenas e médias empresas — os segmentos que já mostram inadimplência mais alta —, o que pode tornar o acesso a crédito mais difícil ou mais caro exatamente para o público que mais precisa dele.
A queda da rede de atendimento físico em quase 900 agências em um ano, combinada com a melhora expressiva do índice de eficiência, mostra que o banco segue um movimento estrutural de digitalização que já é tendência no setor há anos — mas a velocidade dessa redução, justamente num trimestre de resultado de crédito mais fraco, sugere que o banco está usando o corte de custos físicos como alavanca direta para proteger a margem diante de um cenário de crédito mais apertado, não apenas como estratégia de modernização de médio prazo.
O que muda na prática
- Empresas que buscam crédito bancário, especialmente pequenas e médias, devem esperar critérios de concessão mais rígidos enquanto a inadimplência do setor segue subindo — o momento favorece negociação antecipada de linhas de crédito, antes que as condições piorem ainda mais.
- Investidores em ações de bancos devem acompanhar os próximos balanços da temporada para verificar se o padrão do Bradesco (serviços e despesas compensando crédito fraco) se repete nos demais grandes bancos — um padrão repetido reforça a leitura de um problema estrutural do setor, não um caso isolado.
- Empresas de varejo e serviços financeiros podem observar no resultado do Bradesco um indicador antecedente do apetite ao consumo: a queda em crédito pessoal e cartões de clientes de renda menor sinaliza cautela do próprio banco com esse público, o que tende a se refletir em menor poder de compra financiado nesses segmentos.
- Gestores financeiros corporativos devem monitorar a taxa de inadimplência setorial como termômetro do ciclo de crédito — a alta de pessoa física e MPME, mantendo grandes empresas estáveis, indica que o aperto está concentrado na ponta mais vulnerável da economia.
Cenários e próximos passos
A temporada de balanços do terceiro trimestre segue nas próximas semanas com a divulgação dos resultados de Itaú, Santander e Banco do Brasil — números que vão permitir comparar se o padrão observado no Bradesco (crédito fraco compensado por serviços e corte de despesas) é um movimento isolado ou uma tendência de todo o setor bancário brasileiro neste trimestre. Analistas como os da Meraki Capital já sinalizam que o foco do mercado deve se deslocar da comparação trimestre a trimestre para a trajetória da inadimplência ao longo dos próximos resultados, dado o risco que ela representa para a lucratividade dos bancos em 2027.
Fontes
- https://neofeed.com.br/negocios/bradesco-lucra-r-71-bilhoes-e-roe-atinge-161/
Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.


