Juros a 7,5% com reservas como escudo? O debate entre André Lara Resende e a ex-secretária do Tesouro
Proposta de um dos autores do Plano Real para derrubar a Selic ganha espaço às vésperas do Copom; para Ana Paula Vescovi, as reservas internacionais não podem virar “cheque especial” — e a conta pode vir depois, em câmbio e inflação
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Na véspera da primeira decisão do Copom após a eleição, um debate que parecia acadêmico entrou na pauta do mercado: é possível derrubar a Selic de forma rápida usando as reservas internacionais para segurar o câmbio? A tese vem de André Lara Resende, um dos economistas que desenharam o Plano Real, e recebeu uma resposta técnica e dura de Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro. Para quem toma crédito, financia estoque ou investe, o resultado desse debate importa mais do que parece, porque a taxa de juros é o preço de quase tudo que uma empresa faz.
A VEXIA organiza abaixo o que cada lado diz, com atribuição, e depois apresenta a leitura própria sobre o que está em jogo. Não toma partido de tese econômica nem de ninguém.
Contexto
O ponto de partida é o texto “Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos”, publicado por André Lara Resende no Substack, segundo a Agência Brasil. A reportagem diz que ele foi escrito às vésperas do primeiro turno e ganhou destaque nos dias recentes. Lara Resende é professor, formado pela PUC-Rio com PhD em economia pelo MIT, e foi ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES, de acordo com a reportagem.
Os números que ancoram o argumento, citados pela Agência Brasil:
- A Selic está em 13,75% ao ano.
- Segundo um ranking da Moneyou, o Brasil tem a taxa de juros real mais alta do mundo.
- A dívida pública subiu de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 82,9% em agosto de 2026.
- Os juros pagos nos últimos 12 meses somaram mais de R$ 1,1 trilhão, ou 8,9% do PIB.
- As reservas internacionais passam de US$ 350 bilhões.
- A meta de inflação é de 3%.
O que está em jogo
A tese de Lara Resende. Conforme a Agência Brasil e o resumo feito por Ana Paula Vescovi, o autor sustenta que:
- O déficit primário (receitas menos despesas, sem juros) é pequeno e o problema fiscal está nos juros. Nas palavras atribuídas a ele: “Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas.” Ele reconhece, porém, que o país gasta mal, citando emendas parlamentares, vantagens salariais no Judiciário e isenções tributárias.
- O Banco Central sustenta os juros altos “em nome de uma teoria anacrônica”, e não existiria mais uma relação inversa estável entre desemprego e inflação.
- A saída seria um novo regime fiscal e monetário, com metas fiscais e de juros para quatro a cinco anos anunciadas em conjunto, e a taxa básica mantida entre a meta de inflação e o crescimento nominal potencial da economia.
- Segundo Vescovi, a proposta prevê reduzir a Selic para cerca de 7,5% em 12 meses, depois convergindo para uma faixa de 3% a 5,5%. Desvios dependeriam de autorização de um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional.
- O câmbio seria contido com as reservas. A Agência Brasil reproduz a frase: “Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso.” Lara Resende reconhece que cortar juros eleva a inflação no curto prazo, mas considera o efeito transitório.
A resposta de Vescovi. Em artigo de opinião publicado no NeoFeed em 02/11, a economista, ex-secretária do Tesouro e ex-secretária executiva da Fazenda, concorda com o diagnóstico de que o custo dos juros é um problema real. A discordância é com o remédio. Seus principais argumentos:
- Reservas são seguro, não garantia. Usar reservas para suavizar choques externos é legítimo, mas ter dólares não garante que a pressão será temporária nem que as intervenções serão suficientes e sustentáveis. Com a conta de capital aberta, predeterminar juros e resistir a uma pressão cambial persistente pode tornar a política insustentável e transformar a suavização em venda recorrente de dólares.
- Risco de ataque especulativo. Se o mercado percebe que a defesa do câmbio tem limite, pode antecipar compras de dólar e ampliar a pressão. Ela cita a dinâmica de ataques especulativos descrita por Paul Krugman em 1979.
- Teoria fiscal. A teoria fiscal do nível de preços, que o debate usa como base, não dispensa o ajuste das contas públicas, segundo a leitura que ela faz de John Cochrane, que em entrevista à Exame em 2017 disse que a chave para reduzir a inflação no Brasil é uma política fiscal controlada.
- Contas públicas. A queda da Selic alivia a dívida indexada à taxa básica, mas novas emissões incorporam expectativas de inflação e prêmios de risco; uma política vista como inconsistente pode reduzir o juro curto e elevar o longo.
- Quem paga. Vender reservas é uma troca de ativos, não despesa orçamentária. O risco é perder o seguro externo e sofrer um ajuste cambial abrupto, que pressiona preços e corrói o poder de compra, sobretudo dos mais pobres.
Vescovi termina com seis perguntas: qual trajetória de superávits sustentaria a queda simultânea de juros e inflação; que compromisso fiscal preservaria a economia de juros; por que a pressão cambial seria transitória; qual o limite de uso das reservas; com que agilidade o novo conselho autorizaria juros acima da faixa se a inflação subisse; e como preservar a autonomia técnica do BC. Conclui que a proposta promete economizar juros, mas falta demonstrar que a conta não será paga com as reservas e, depois, com mais inflação.
Como isso funciona
Para entender a disputa, vale separar três mecanismos.
Juros e dívida. O governo paga juros sobre a dívida pública. Quando a taxa básica sobe, a parcela da dívida atrelada a ela fica mais cara, e a conta de juros aumenta. Esse é o ponto em que Lara Resende e Vescovi concordam: o custo é alto e pesa nas contas.
Juros e câmbio. Juros menores tornam os títulos brasileiros menos atraentes para o investidor estrangeiro, o que tende a pressionar o real para baixo. Um dólar mais caro encarece produtos importados e insumos, e pode empurrar a inflação para cima. É esse o canal que a proposta quer neutralizar com as reservas, e é nele que Vescovi aponta o maior risco.
Reservas internacionais. São ativos em moeda estrangeira mantidos pelo Banco Central. Podem ser vendidos para segurar o dólar, mas são finitos, e o mercado observa o ritmo de uso. Se acreditar que o BC não consegue sustentar a defesa, o efeito pode se inverter.
Neste ponto, a descrição acima é didática e geral, não reproduz opinião de nenhum dos autores.
Análise VEXIA
O que segue é leitura da VEXIA.
O debate chega num momento sensível. Nas últimas semanas, o dólar subiu 9% em uma semana e o Itaú passou a ver o fim do ciclo de cortes da Selic, e o Copom decide a taxa nesta quarta com mercado dividido. Uma proposta que promete juros muito menores sem desarrumar o câmbio é, naturalmente, atraente para quem paga o crédito. A pergunta que Vescovi faz, porém, é a que um empresário prudente faria diante de qualquer promessa: qual é a premissa, e o que acontece se ela falhar?
A força do argumento de Lara Resende está no diagnóstico. A dívida em torno de 83% do PIB e a conta de juros de 8,9% do PIB em 12 meses são números que ninguém contesta, e a pergunta de por que o país convive com juros reais tão altos é legítima. A força do argumento de Vescovi está na gestão de risco: mudar o regime monetário num país que acabou de viver o pior dia do real em décadas exige credibilidade que não se improvisa.
Há um ponto em que os dois lados, curiosamente, convergem: ambos tratam o fiscal como peça central, ainda que discordem sobre o sentido da causalidade. Para Lara Resende, o juro causa o desequilíbrio; para Vescovi, o ajuste fiscal sustenta a possibilidade de juros menores. Para o gestor, a conclusão prática é a mesma: sem sinal crível sobre as contas públicas, o custo de capital dificilmente cai de forma sustentável.
Outra leitura possível é que o debate, por si só, já é um dado de mercado. Quando uma figura do Plano Real propõe uma ruptura de regime e outra, igualmente respeitada, responde com seis perguntas técnicas, o investidor estrangeiro lê um sinal de que a discussão sobre o regime monetário não está encerrada. Isso, num momento de prêmio de risco mais alto, pode pesar. É uma hipótese, não um fato reportado.
O que muda na prática
- Não planeje o caixa contando com juros a 7,5%. A proposta é um artigo de opinião, não política do governo nem decisão do Banco Central. Trabalhe com a Selic atual e cenários conservadores.
- Acompanhe o Copom de quarta (4/11). É a decisão que de fato define o custo do crédito no curto prazo, e a comunicação do comitê trará pistas sobre a leitura de câmbio e fiscal.
- Reveja a exposição cambial. Se a tese de intervenção ganhar força, a volatilidade do dólar pode aumentar. Quem importa insumos ou tem dívida em moeda estrangeira deve simular movimentos nos dois sentidos.
- Prefira prazos e taxas que cabem em cenários adversos. Crédito com custo fixo e prazo longo protege contra a hipótese de juros altos por mais tempo.
- Leia o debate como termômetro de política econômica. Quem decide investimento de longo prazo deve acompanhar quem o governo escolher para a Fazenda, como discutido em quem comanda a economia no quarto mandato de Lula.
Cenários e próximos passos
- Debate sem desdobramento: a proposta segue como contribuição acadêmica e jornalística, sem efeito sobre a política monetária.
- Pressão política por juros menores: se o tema ganhar peso na articulação do novo governo, o mercado pode passar a precificar risco de interferência na autonomia do BC.
- Ajuste fiscal crível: o cenário que, em tese, reduziria o debate a um ponto de partida comum, porque abriria espaço para juros menores sem apostar em reservas.
Os marcos observáveis são o Copom desta quarta, a definição da equipe econômica, que deve avançar depois de 16 de novembro, e a tramitação do Orçamento de 2027.
Fontes
- Agência Brasil, “Economista de Plano Real acusa BC de causar rombo fiscal via juros”, Lucas Pordeus León (02/11/2026): agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-11/economista-de-plano-real-acusa-bc-de-causar-rombo-fiscal-juros
- NeoFeed, “Opinião: As reservas internacionais não podem virar cheque especial para baixar juros”, Ana Paula Vescovi (02/11/2026): neofeed.com.br/insiders/opiniao-as-reservas-internacionais-nao-podem-virar-cheque-especial-para-baixar-juros
Como esta matéria foi feita. A redação da VEXIA usou inteligência artificial para reunir e organizar fontes públicas (dados oficiais, empresas e imprensa especializada), e revisou o texto antes de publicar. As fontes estão citadas ao fim da matéria.
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