O que gestores da Faria Lima esperam do governo Lula para 2027
Entre apostas de dólar a R$ 5,30, juros longos que podem devolver toda a queda do 1º turno e um gestor que foi às urnas protegido por opções equivalentes a 30% do fundo, o mercado financeiro paulista monta o cenário para o novo mandato

Contexto
A reeleição de Lula, que venceu Flávio Bolsonaro no 2º turno por mais de 4,4 milhões de votos, surpreendeu boa parte do mercado financeiro, que vinha precificando maior probabilidade de vitória do adversário nas semanas anteriores à votação, segundo reportagem do NeoFeed publicada em 27 de outubro com gestores da Faria Lima, o polo financeiro de São Paulo. O texto reúne a leitura de gestoras como Charles River Capital, Armor Capital, SulAmérica Investimentos e G5, além de um gestor de ações ouvido sob anonimato, sobre o que esperar da relação entre o governo reeleito e o mercado em 2027.
O que está em jogo
Antes mesmo do resultado se confirmar, o mercado já havia se posicionado para o cenário de maior volatilidade: Camilo Marcantonio, da Charles River Capital, observa que os juros longos haviam caído mais de 130 pontos-base depois do 1º turno — e aposta que essa queda pode ser revertida parcial ou totalmente com a confirmação da reeleição. Um gestor de ações ouvido sob anonimato havia projetado, antes da segunda-feira, um circuit breaker de 10% e uma correção de até 20% no Ibovespa — o que anularia o ganho acumulado desde o 1º turno. Segundo dados da consultoria Elos Ayta citados na reportagem, as empresas listadas na B3 haviam somado R$ 515 bilhões em valor de mercado nos primeiros 13 pregões de outubro, ganho que a reação do mercado à reeleição ameaça reverter.
No câmbio, as projeções dos gestores variam: Gustavo Rostelato, da Armor Capital, projetava o dólar a R$ 5,30 nos primeiros dias após a eleição, partindo do fechamento de R$ 4,99 em 23 de outubro — classificou o movimento esperado como um choque para o mercado. Marcelo Mello, da SulAmérica Investimentos, projetava o câmbio entre R$ 5,10 e R$ 5,20 no curto prazo, com o novo patamar de equilíbrio dependendo das sinalizações econômicas que o governo der nos primeiros dias.
Como isso funciona
Para os gestores ouvidos, 2027 se desenha como um ano de ajuste praticamente inevitável, independentemente das medidas que o governo venha a anunciar: a combinação de famílias endividadas, consumo perdendo força, crescimento econômico mais fraco e uma dívida pública que vai exigir contenção de despesa é vista como um cenário já dado, não uma possibilidade distante. Luis Otavio Leal, economista-chefe da gestora G5, acrescenta um fator externo a essa conta: o capital global está mais seletivo com países endividados, o que deve encarecer o financiamento do Brasil no mercado internacional independentemente da política doméstica.
A dúvida central que os gestores levantam não é se o governo vai anunciar medidas de contenção de gastos — a leitura é que ele provavelmente vai —, mas se vai conseguir sustentá-las diante de uma economia fraca e do custo político de cortar despesa logo após uma campanha eleitoral. Segundo Leal, a aposta do entorno de Lula é que o investimento público gere crescimento, e esse crescimento gere mais arrecadação — mas o problema, na leitura do economista, é que esses dois efeitos acontecem em horizontes de tempo diferentes: o gasto é imediato, o retorno em arrecadação é mais lento. Para o mercado, é justamente nesse intervalo de tempo que mora o risco.
Análise VEXIA
O dado mais revelador desta reportagem não é a projeção numérica de nenhum gestor — é a estratégia descrita pelo gestor de ações ouvido sob anonimato, que chegou ao 2º turno comprado em ações mas protegido por opções de venda (puts) equivalentes a 30% do patrimônio do fundo, com posições concentradas em ações líquidas de setores defensivos, como distribuidoras de energia. Essa configuração — manter exposição a ações mas comprar seguro caro contra queda — é a tradução prática, em decisão de portfólio, do que a pesquisa do Citi já havia identificado antes da eleição (e que a VEXIA noticiou na sexta-feira anterior ao 2º turno): o mercado via risco assimétrico, com queda esperada maior do que o ganho esperado no cenário alternativo. Gestores profissionais não apostam all-in num resultado binário — eles se posicionam para o cenário em que acreditam, mas pagam para se proteger do cenário que temem.
A visão sobre a bolsa que mais chama atenção é a mais contida: pelo histórico de governos Lula anteriores, a expectativa entre os gestores ouvidos não é de recuperação forte da renda variável, mesmo depois da queda abrupta de segunda-feira. A combinação de juros altos por mais tempo com risco de piora nos resultados das empresas — especialmente as voltadas ao mercado interno, mais sensíveis a juros e consumo do que as exportadoras — sugere que o mercado não está tratando a queda de 13,88% do Ibovespa como um exagero passageiro a ser revertido rapidamente, mas como uma reprecificação que pode durar.
Para empresas brasileiras, a lição prática desta reportagem é sobre expectativa de custo de capital: se o consenso entre gestores é que 2027 será um ano de ajuste “com ou sem” ação do governo, faz sentido que áreas financeiras de empresas planejem já assumindo um cenário de juros elevados por mais tempo do que o Boletim Focus pré-eleição projetava (Selic a 13,75% hoje, com expectativas que devem ser revisadas ao longo desta semana), em vez de esperar uma normalização rápida.
O que muda na prática
- Empresas com planejamento orçamentário para 2027 devem considerar, como cenário-base, juros mais altos por mais tempo e câmbio na faixa de R$ 5,10 a R$ 5,30 (ou mais, em cenário adverso), em vez de apostar em reversão rápida do movimento desta semana.
- Gestores de fundos e tesourarias corporativas podem observar a estratégia de proteção via opções descrita na reportagem (exposição comprada com hedge parcial via puts) como referência de gestão de risco em cenário de alta incerteza política.
- Empresas voltadas ao mercado interno (varejo, construção civil, serviços financeiros de crédito ao consumidor) devem monitorar sinais de equipe econômica como gatilho de reprecificação, já que são as mais sensíveis à combinação de juros altos e consumo fraco citada pelos gestores.
- Exportadoras de commodities seguem com viés relativamente mais favorável no cenário descrito pelos gestores, dado o câmbio mais depreciado — mas o efeito tende a durar enquanto a pressão cambial persistir.
- Áreas de relações com investidores de empresas listadas devem se preparar para perguntas recorrentes sobre exposição a juros e câmbio nos próximos resultados trimestrais, dado o nível de atenção do mercado a esse tema.
Cenários e próximos passos
Segundo os gestores ouvidos, a capacidade de Lula de convencer investidores de que vai controlar as despesas públicas é o fator mais decisivo para a trajetória dos juros e para uma eventual recuperação dos ativos brasileiros nos próximos meses. Os sinais mais aguardados pelo mercado são a definição da equipe econômica — a quem caberá o Ministério da Fazenda — e as primeiras medidas fiscais concretas do novo mandato, que devem ser o gatilho da próxima rodada de reprecificação de câmbio, juros e bolsa.
Fontes
- https://neofeed.com.br/negocios/o-dia-seguinte-da-eleicao-o-choque-de-realidade-entre-o-planalto-e-a-faria-lima/
Esta matéria foi produzida pela Redação VEXIA com apoio de inteligência artificial, a partir de fontes públicas verificáveis (decisões judiciais, leis, publicações oficiais e imprensa especializada). As fontes consultadas estão citadas ao final do texto.


